Por Agência Brasil
Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil
A exposição do escultor Rogério Ratão reúne 12 peças que podem ser vistas até o dia 29 de outubro no Memorial da Inclusão, zona oeste paulistana. Pelo menos a metade delas são rostos e bustos com feições nunca vistas pelo artista. As que fazem parte da série Devaneiossurgiram a partir do exercício de modelagem no torno. “Eu estava, na verdade, criando seixos no torno, pedras de rio. E quando eu peguei isso na mão eu pensei: 'Nossa, poderiam ser cabeças?'”, disse Rogério sobre seu processo de trabalho.
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Duas esculturas de bustos masculino e feminino, chamadas “Otávio” e “Eugênia”, em bronze sobre um suporte de mármore, de perfil. Fazem parte da série “Ilustres Desconhecidos”Divulgação/Memorial da Inclusão |
Os rostos ovais foram colocados sob pedestais que os deixam inclinados, com ar contemplativo. Conjuntos que podem ser desmontados pelos visitantes durante a apreciação dos trabalhos. Isso porque toda a exposição Impressões Táteis pode ser tocada pelo público. Os títulos da obra estão em letras grandes que facilitam a leitura para os que têm dificuldades de visão e texto em Braile para aqueles que não enxergam.
Essa é situação do próprio artista, que desde os 18 anos consegue perceber apenas algumas variações de luz. Rogério já tinha a visão de um dos olhos bastante prejudicada por problemas congênitos. Mas uma inflamação, no fim da adolescência, acabou atacando também o olho mais funcional do escultor.
Foi inicialmente como uma forma de reabilitação que, em 1992, Rogério foi estudar com o artista plástico Angel San Martin . O processo de aprendizado com a escultura foi parte de uma releitura do mundo. “Apesar de gostar de arte, querer ter feito arquitetura, eu não tinha experiência nenhuma com modelagem. Ainda mais, a partir de então, sem a visão. Eu tive mesmo que desenvolver muito o sentido tátil, não só da minha mão, mas do corpo inteiro”, disse.
Tocar nas obras
A experiência tátil, em outro sentido, foi uma novidade para as alunas de uma escola estadual de Sapobemba que visitaram a exposição. “A gente se aproxima da obra. Você consegue sentir os detalhes”, afirmou a estudante Mablyn Cristina, de 14 anos, que estava com as colegas com as quais fará um projeto ligado à acessibilidade na escola onde estudam.
“A gente consegue perceber o amor que ele teve para fazer as obras”, complementou, empolgada, Lívia Vieira (14 anos), outra participante do grupo que esteve no museu naquela tarde. A professora Iara Sobrinho, que acompanhava as estudantes, tentou resumir os sentimentos das jovens. “A visão dele é esse tato. Você consegue sentir o que ele quer passar, ver pela visão dele”.
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Três esculturas em bronze sobre suporte de mármore. São três formas humanas, cada um tocando um instrumento diferente. Uma das esculturas está em pé, e outras duas sentadas. Faz parte da série “Formas de um Choro”.Divulgação/Memorial da Inclusão |
A importância da descoberta do potencial dos sentidos está representada na exposição. Na primeira série, feita entre 1994 e 1995, um dos trabalhos é uma escultura de um par de mãos. Significativo do modo como Rogério foi descobrindo a usar seu corpo como medida do espaço e do material que modelava. “Eu tomo meu corpo como referência para criar uma relação de espaço”, disse.
A técnica aperfeiçoada foi usada para que o escultor traduzisse em bronze, assim como a maioria das peças da exposição, a afeição pela música clássica. “A minha segunda individual foi em cima do Choro de Câmara nº7 do Heitor Villa-Lobos. Eu fiz as musicistas que seriam necessárias para execução dessa obra”.
Em seguida, vem os bustos com nomes de gente comum. Ilustres Desconhecidos, segundo o título dado pelo artista. Retratos feitos com base na estética do início do século 20. “Sou apaixonado pela arte ocidental feita nas décadas de 1910, 20 e 30. Gosto muito da arte déco”.
O Memorial da Inclusão funciona, de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h, no complexo do Memorial da América Latina, zona oeste da capital paulista.