sábado, 2 de janeiro de 2016

Santa Raimunda: A alma milagrosa da Seca do Quinze

     
Quarta-feira, 30 de dezembro de 2015. Fim de ano, fim de tarde. Upôr-do-sol pálido garante uma luz amena sobre o terreiro da capela no lusco fusco do dia que termina. A verdura da caatinga começa a ressurgir timidamente como que curiosa, escondida por trás da secura do mato.

Animou-se com as chuvas do final de dezembro que, depois de cinco anos de seca, trouxe ao sertão de Aracoiaba, esperança de inverno. Dois pequenos grupos caminharam por cerca de dois quilômetros, saindo das comunidades de Várzea da Abelha e Carnaúbas, rumo à pequena capela erguida no local onde foi enterrada uma das muitas vítimas da seca de 1915: a menina Raimunda.

Raimunda Lino da Silva, 15 anos de idade, fazia parte de um grupo de retirantes que perambulava pelo sertão em busca da Serra Verde em Baturité. Morreu de fome e sede. Os retirantes quiseram leva-la para sepultar em Vazantes, mas, enfraquecidos também pela fome e sede, enterraram ali mesmo a jovem defunta. Puseram sobre a cova uma cruz feita com dois pedaços de pau amarrados com arame. Mais tarde a sepultura foi encontrada e um quarto de oração foi construído ali. Localizada numa região outrora povoada, a pequena capela fica longe de tudo, à beira de uma estrada quase deserta, a seiscentos metros do leito do rio Choró. A piedade popular atribui muitas graças à “alma da finada Raimunda”. Já na chegada das caminhadas, alguns devotos agradeciam os favores alcançados, acendendo velas no interior da capela, rezando e soltando fogos. A retirante faminta, tangida pela seca, açoitada pelo sol, sufocada pela poeira e brutalmente assassinada pela fome e sede, agora é uma “alma milagrosa”, é "Santa Raimunda". Antes da missa um testemunho de cura. Na missa, a história de Raimunda é recontada: “não tinham nada pra comer nem beber, foi então que ela veio a falecer de tanta fome”. A devoção é confirmada: “vem gente de longe pagar promessas nesta capela, pois Raimunda se tornousse milagrosa”.

Mas, para além da religiosidade, está a memória dos cem anos da Seca do Quinze. Raimunda é a imagem histórica de um Nordeste miserável, condenado a sobreviver por entre os ciclos climáticos que inexoravelmente perseguem este pedaço de chão. Raimunda é o retrato histórico de um país de poucos com muito e muitos sem nada. Raimunda é o estereótipo do nordestino flagelado, vilipendiado e semiescravizado. Raimunda é o vulto da fome. É esta imagem de Raimunda que nos põe diante do questionamento sobre o Nordeste de hoje e de amanhã. É certo que hoje temos muito mais açudes, muito mais perímetros irrigados, muito mais cisternas, muito mais Garantia Safra, muito mais infraestrutura, muito mais programas sociais etc. Os efeitos da seca no Nordeste já não são os mesmos, mas devemos sempre voltar os olhos para a imagem de Raimunda e deixar que ela nos impulsione para a construção conjunta de um futuro sempre melhor, de um mundo sustentável, de uma vida digna para os pobres. E a união, força histórica do povo de Deus, será sempre a melhor maneira de vencer os desafios desta época. Que as comunidades de Aracoiaba fortaleçam os laços de fraternidade e despertem para o compromisso de lutar para que as mazelas de hoje não sejam tão devastadoras como na Seca do Quinze.

Pe. Evando Alves de Andrade

FONTE: Paróquia de Aracoiaba

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